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quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

O piloto-automático e o pensar


O jornal A Tarde (Salvador, BA) está dando provas diárias de que as coisas não estão bem pelos lados soteropolitanos. Hoje aposta em manchete pelo coronavírus, mas ilustra com uma péssima foto, de release, do Ministro da Saúde em coletiva.

A quem interessa essa foto? Talvez à mãe do Ministro, ao Presidente da República e ao próprio Ministro. Mas não ao leitor. Tudo o quer o leitor não quer é gente engravatada em volta de uma mesa.

O Estado de S. Paulo (SP), por exemplo, até escorrega em uma "pegadinha", mas pensou bem antes de definir a capa. O assunto é o mesmo, só que as imagens são de três testemunhas na China (não são os casos anunciados em manchete, evidentemente).

Bastou pensar. E praticar jornalismo.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Folha não se intimida e enfrenta o governo


Não bastaram as ameaças de cortes de verbas, retaliações e até o presidente da república se negar a responder perguntas do jornal. Folha de S. Paulo (SP) segue firme buscando moralizar o que ainda é possível pelos lados de Brasília.

O escândalo moral do Secretário de Comunicação Social (Secom) do governo, de ser sócio de uma empresa de lobby e de assessoria de imprensa ao mesmo tempo em que divide verbas para grandes meios, só piora. A Folha revela hoje que (surpresa?) os clientes do Secretário foram, por casualidade, beneficiados com a distribuição de campanhas no ano passado. Ou seja, "me pague aqui que eu devolvo lá".

O papel da Folha é fundamental para que a democracia siga dominando o quadro político brasileiro.

Como não se deve fazer uma capa


Nem bem começa o ano e Zero Hora (Porto Alegre, RS) já dá sinais de que será mais um período de segundas-feiras de capas medíocres - como tem sido nos últimos tempos. A primeira preocupação é "equilibrar" notas de Grêmio e de Inter, equipes gaúchas que dividem a torcida. E isso não faz o menor sentido em 2020.

Pior, o tal "equilíbrio" faz com que o obvio apareça na capa. Ou o que dizer dos títulos "3 pontos fora" e "3 pontos em casa"? Um jogou fora, o outro jogou em casa. Os dois venceram. E então? Por que o resultado do jogo - e número de pontos - e a chamada principal?

O veículo gaúcho é de uma falta de criatividade tamanha que nem chega a ensaiar algo mais criativo. Já deu-se por vencido. É ruim a chamada, ninguém duvida, mas não se gasta tempo pensando em algo melhor.

Previsão triste para 2020: a circulação do impresso seguirá em queda (hoje são cerca de 70 mil exemplares/dia) e o crescimento dos assinantes digitais não compensará essa redução. 

sábado, 18 de janeiro de 2020

Faltou coragem aos jornais brasileiros


Na mais vergonhosa atitude de algum membro de governo desde 1941, quando Getúlio Vargas ameaçou apoiar a Alemanha na Segunda Guerra Mundial, o ilustre desconhecido Secretário da Cultura foi exonerado ontem. Motivo: apologia ao nazismo - crime previsto no código penal brasileiro. Nada mais imoral, mais absurdo - a tal ponto que o escândalo do Secretário de Comunicações (que distribui verbas oficiais para seus clientes privados) caiu no esquecimento.

Hoje era dia para os jornais brasileiros se posicionarem de verdade. Não é simplesmente a queda de um membro do primeiro (ou segundo) escalão, mas o ensaio de um pensamento absolutista, nazista, tirano. Impossível não se pensar que este senhor estava autorizado a dizer as barbaridades que disse, ao som de Wagner.

Os jornalões pegaram muito leve. Só o Correio Braziliense (Brasília, DF) comparou de forma clara o Secretário a Goebbels - ainda assim só no primeiro terço da capa. Folha de S. Paulo (SP) colocou o ministro nazista na capa também, mas quase escondido. O Globo (Rio de Janeiro, RJ) e O Estado de S. Paulo (SP) foram mais comedidos.

Era dia para dizer que há um limite nos absurdos que ocorrem no Governo. Que ainda há inteligência e respeito na sociedade. E que a mídia - seguindo os desejos do cidadão - vai pegar pesado contra os exageros vindos de Brasília.

Só que a imprensa parece estar com medo. E isso não leva a nada. Talvez à queda de circulação.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Ainda é tempo de desejar um Feliz 2020


O melhor jeito de começar 2020 é entender qual o papel dos meios de comunicação na vida das pessoas.

Tentei explicar nesse texto publicado no Meio & Mensagem.

Bom ano a todos!

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Jornal para fazer fogueira ou embrulhar peixe


Em 2020 já não há mais desculpas. Jornais que não entenderam qual a nova função dos impressos tendem a desaparecer. Por falta de leitores.

O Boeing da Ukraine International Airlines caiu nos arredores do aeroporto de Teerã às 23h12 (hora do Brasil) de terça-feira. Hoje é quinta.

O baiano mais desavisado, que passou o dia entre um banho de mar no Farol da Barra e um acarajé no Rio Vermelho soube por Internet, TV ou Rádio do acidente. Mais: ele soube das repercussões, das investigações, das ameaças dos presidentes, da tensão EUA-Irã, e até da caixa-preta do 737-800.

Aí o jornal A Tarde (Salvador, BA) dá hoje como manchete, mais de 30 horas depois, a notícia pura e crua do acidente.

Sem anúncios, sem leitores e sem criatividade, não é difícil prever a lamentável morte do jornal A Tarde para 2020. A menos que consiga reverter a estratégia para salvar essa marca histórica. Ainda há tempo. Mas a contagem regressiva já começou.

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Velho e novo ao mesmo tempo


O jornal O Povo (Fortaleza, CE), referência editorial do Ceará, comemora hoje 92 anos e conseguiu misturar o que há de mais antigo no jornalismo com algumas pitadas de modernidade.

O antigo: a quem interessa o aniversário? Apenas aos acionistas. Ou seja, para o leitor o 07 de Janeiro de 2020 é um dia como qualquer outro. Portanto, o cearense espera que na capa venha o mais relevante - que certamente não é o aniversário do jornal. Trata-se de um olhar para o próprio umbigo que desapareceu dos grandes jornais do mundo - mas sobrevive em O Povo.

O novo: a arte, o branco, as poucas chamadas, as palavras soltas como se fossem leads. Ou seja, graficamente O Povo inova para empacotar algo muito antigo.

De qualquer forma, parabéns a O Povo (pelo aniversário, não pela edição). E muita esperança que se chegue ao centenário. Faltam 8 anos, talvez os mais difíceis 8 anos da vida do jornal.